
imagem google

A BARATA E EU.
Quase meia noite, horário que tomo banho para ir dormir. O dia
seguinte seria longo.
Ao fechar a porta do banheiro percebo uma barata quieta,
escondida na esquadria de alumínio do box. Olhei mais atentamente, ela me
olhava com atenção, não sei dizer se com medo, mas precavida pensando em sair.
Pensei:- Ao abrir a água ela se move, realmente estava curioso.
Ela continuava a me observar.
Lembrei-me do filósofo que iniciou um livro referindo suas
sensações, ao ver-se nu diante de um gato. Realmente não era o caso, a barata
não me inibia.
Abri o chuveiro, ela se encolheu. Percebi que era medo. Comecei a me ensaboar. Ela me olhava.
Pensei comigo:- Tenho de matá-la. Ana, minha esposa, tem nojo. -Nojo?
Não há motivo, os ralos têm pequenas
aberturas; ela não passa por eles, veio certamente de algum dos muitos
apartamentos fechados, não veio do esgoto; mesmo no esgoto elas não costumam se
banhar, acho que não o usam como piscina. A possibilidade de transmitir doença
é quase nula, mesmo não morando aqui. O ambiente além de azulejado as portas
são relativamente novas e não há vãos nos batentes para formarem ninhos. Além
do mais tem humanos que trabalham nas galerias de esgoto, faz isto à vida toda
e ninguém tem nojo deles, aliás, inspiram respeito pelo necessário trabalho.
Lembrei-me que estes insetos vivem em coletividade e, um psicólogo
descobriu que se isolar uma de outras do mesmo grupo, esta entra em depressão.
Coitada!
- Mas dá alergia, foi o que li num livro. Os pedaços dela
respirados provocam crises alérgicas. Olhei-a de novo, encolhida amedrontada no
mesmo lugar. Nunca tinha visto nenhuma perder pedaços, a não ser após a
chinelada assassina.
- Sim, não anda se espedaçando, pensei comigo. Quer apenas comer
o limbo.
-Deve ser pouco limbo, a Karlinha, a moça que nos auxilia, lava
pelo menos três vezes por semana, tem mania de limpeza e, passa agua sanitária
toda vez. Acho que a comida é escassa. Deve ser uma questão de gosto,
apartamento fechado tem muito mais destes mínimos vegetais do que aqui. Devem
explorar o território ao redor, “o fruto do vizinho é mais gostoso”. Bem menos
que a gente que vai de avião até o outro lado do planeta. Afinal elas são do
tempo dos dinossauros, pelo menos foi o que li.
- Espera aí! Desde aqueles tempos e continuaram do mesmo jeito;
são melhores adaptadas no planeta que nós. Só o gênero Homo, ouvi falar de uns
dez grupos, todos extintos: sempre mudando, guerreando e se matando. Agora é o
Sapiens que faz guerras diárias, desde que se escreve a história da humanidade
não houve um dia sem guerras. Elas não! Formam seu grupinho, não devem brigar
muito, e gostam uma das outras e até ficam deprimidas quando isoladas. Estão muito
melhor que nós no planeta.
Estão resistindo. Não vejo mais joaninhas, nem pulgas. Estas sim
além de caçar nosso sangue causam dor. Nem minhocas estamos vendo; os
pescadores devem ter dificuldade em acha-las para seu laser. Geralmente vão à
beira do rio, cortam o anelídeo em pedaços, reclamam que sujam as mãos com seu
sangue e linfa, conseguem pescar um mini bagrinho e um piauzinho. Os
coitadinhos são tão pequenos que a foto do celular não consegue pegar o corpo inteiro
do autor da façanha. Levados para casa, a mulher olha com desdém: Não dá nem
para passarinho! Fala ela.
Ele se ofende, ela manda colocar na geladeira que os limpará no
dia seguinte e, no dia marcado os pobrezinhos roubados do rio são lançados ao
lixo.
Desliguei o chuveiro, ela viu sua chance de escapar e se
escondeu atrás da privada. Pensei:
- Ela acha que não a enxergo, doce engano! Como deve ser difícil
a proporção do campo de visão em relação ao tamanho. Acho que se eu estivesse me
escondendo de um dinossauro faria o mesmo erro. Ela pensa que ocultar-se atrás
de um vidrinho de retirar nosso cheiro está escondida, mero engano.
Ela continuou lá, me espiando, certamente com medo, quem não
teria?
Sequei-me, coloquei o pijama, apaguei a luz e fechei a porta
torcendo para que Ana não entrasse no lavatório e a matasse e, nem que a
pobrezinha indefesa saísse para o corredor, o que assustaria o Lacan, meu cão,
que tudo o que não conhece evita sem agredir. Ao contrário do ser humano que
mata para ver. Inutilmente.
Afinal, dia seguinte iria cuidar de vidas, como sempre fiz.
Obs: Vou
apanhar quando esta crônica for lida.
Tony-poeta
01/10/2013
Nenhum comentário:
Postar um comentário