O VAZIO DO NADA

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Eduardo caminhava distraído,
conhecia todas as pessoas no local que habitava; ora sorria para um, ora cumprimentava
outro. Seguia calmamente até ao banco, iria pegar um troco para o final de
semana. Apesar de solitário nada o preocupava, tinha uma aposentadoria
satisfatória e ocupava o tempo a conversar trivialidades com os muitos amigos e
lia, lia muito.
Entre o levantar do pé
direito e colocá-lo novamente ao chão em seu caminhar sentiu-se estranho. Em
principio recordou-se quem era; em seguida para onde ia. Continuou a deambular
pensativo:
- Quanto tempo me
ausentei de mim mesmo?
- Aonde fui? E começou
a organizar as lembranças.
- Vi um sorriso
qualquer, ou foi um olhar? Quem foi aquela mulher que me tocou?
- Sim, viajei! Como
viajar se estou sóbrio e não uso drogas:
- Era um mundo sem
objetos, ah sim! Outro mundo, um portal.
Quanto tempo lá fiquei? Algumas frações de segundo ou a eternidade dos anos?
Pensando bem, deixe-me
raciocinar:
Não havia corpo,
estive no vazio que os Orientais sempre buscam. Pode ser que já estive outras
vezes e não percebi: pouco nos importamos com nosso sentir e não sentir: prestamos
pouca atenção em nos mesmos.
Habitei o local sem
matéria. Não havia som, pois este lembra vida, que mais é a vida que o som das partículas
elétricas de um espermatozóide e um óvulo se encontrando, um choque harmônico ou
uma explosão do encontro. A vida é a explosão dos corpos que se beijam e
fundem, antes nem vida há. Apenas o vazio.
O vazio não tem
lembranças, estas pertencem aos sonhos; que mais é o sonho do que cacos do
passado ajuntados em fantasias.
Viver é pegar pequenas
pedras para fazer o caminho que será percorrido, unindo os cacos que nos mesmo
desprezamos e ordená-las à frente num mosaico de recordações onde damos nossos
passos, sempre procurando pedras conhecidas e a seguir descartando para
pega-las novamente, num frenético refazer o mesmo.
Viver é apenas um caminhar de recordações
repetidas em outros desenhos. Não se segue caminhos desconhecidos. A estrada que
ignoramos é sempre nebulosa e apavorante, preferimos juntar pedaços e caminhar
sobre eles.
O vazio é sem matéria,
anterior ao viver. Lá não existe som, recordações; não há o bem ou o mal, o
bonito ou o feio, o grito ou o canto, tudo pertence à matéria. Não há contrários
sem matéria.
Certamente é estático,
sem movimento, não é agradável nem apavorante, apenas uma dimensão
desconhecida. Se a vida se inicia em movimento: é lá que ela começa; na falta.
Quando o corpo se desloca ele vive, viver é cantar e gemer, ter o riso farto e
o choro profuso, ter alegria do encontro e o desespero da despedida. É oscilar
entre a vida e a morte. O vazio é não vida; é ultrapassar a morte se
dimensionando em outra referencia. Lá alem da vida e da morte mora a
existência.
Somos apenas
artefatos, pequenos brotamentos do lodo neste perverso sistema de nascer neste planeta
mineral que ampara nossos movimentos. A vida é o convívio com a morte; nasce e
se alimenta dela e a ela retorna. A natureza é o circulo de morte no lodo que reveste
o planeta; somos apenas míseros espectros animados que dançamos e choramos,
rimos e cantamos julgando amar.
A poesia e a musica é
a animação que tentando quebrar o ritmo do nascer e se fazer movimento;
buscamos voltar à calma e o repouso da origem, desfazer o ego e ser vida, este
desafio quase impenetrável que não enxergamos.
Quando, na deambulação
da estrada de azulejos reaproveitados conseguimos percorrer a trilha inversa,
não a reconhecemos, pois se buscamos a paz lembramo-nos da guerra, se pensamos
em amor, lembramo-nos do ódio. Lá na dimensão de origem não há matéria é apenas
o vazio do nada.
Lembrou a senha do
cartão e entrou no banco, calmo com sempre.
Tony-poeta
15/11/13
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