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A GRUTA DE BRANDONÓPOLIS
Helder visitava a propriedade de Jovelino Brandão, foi a
contragosto. O Geólogo tinha que fazer o levantamento do pequeno Município de
Brandonópolis; o engenheiro agrônomo já havia passado e não encontrara lugar
apropriado para fazer uma lavoura.
Toda área que compreendia Brandonópolis era de encosta com
pedras, eram muitas pedras; em poucos lugares dava para fazer um pequeno
roçado. Na área quase total do Município, além de mato, tinha algum capim nas
encostas onde o gado subia com dificuldade; muito espinheiro que era
aproveitado para criar cabras. Era a economia da cidade, com a venda de carne
caprina na Pascoa e Final de ano e, um mirrado fornecimento de leite dos
caprinos para confecção de queijo. Tudo era pobre no local, menos o Brandão.
Doutor Brandão, como era chamado, era da família de
desbravadores do local, e se julgava dono de tudo, apesar de outros sitiantes
estarem legalmente estabelecidos no distrito. Por muitas gestões foi
alternadamente com o pai, prefeito da região, até que Brasília mandou fiscalização
para ver o emprego de verbas federais. Além
de repor o desvio apurado, o mesmo foi cassado politicamente por três anos e
seu filho Eduardo por oito, ficando sem candidato da família. Perderam a prefeitura
para o Professor Rogério, da oposição que não teve nem duzentos votos.
A suspensão do Doutor Brandão ia acabar neste ano, queria se
candidatar, apesar de estar próximo dos oitenta anos, já que seu neto era muito
novo e, seu filho tinha mais cinco anos de espera.
O Professor Rogério, com verbas que arrumou em Brasília
estava bem. Até os vereadores, que eram meio parentes dos Brandão, davam todo
apoio. O ex-prefeito ficou com fama do Rei dos Ladrões, ninguém entendia como
conseguira roubara tanto de um lugar tão pobre. Por enquanto tinha que
dedicar-se a suas terras. Escutava, atento as recomendações do Geólogo Helder.
Foi dado o veredicto: - Pouco tem a se fazer, podemos conseguir
aumentar um pouco as cabeças de boi e cabra, não dá para fazer agricultura. Só
tem pedra e rocha, e uns buracos que não são nem cavernas. Não é agricultável,
falou Helder.
- Gruta tem uma ali, falou Brandão apontando o dedo, é lá
que Preguiçoso, o burrico se esconde quando não quer trabalhar.
Helder, curioso com cavernas, na verdade apaixonado pelas
mesmas, se dispôs a ver a tal gruta do burrico fujão.
No fim de uma descida íngreme estava lá, uma pequena gruta,
banhada por um mínimo filete de água. Examinou-a atentamente, por fim falou:
- Realmente, é uma caverna em formação, a água está entrando
entre dois maciços de rocha e deve estar formando uma sala mais abaixo. Mais
uns cem anos deve aparecer, é só a água remover os detritos.
- Não dá para apressar? Falou Brandão.
- Não, a gente nunca apressa a natureza, por enquanto fica
só a caverninha, daqui a algumas gerações teremos a primeira sala, que acho que
está quase pronta.
Brandão deu um sorriso. Acabara de
imaginar como iria voltar a politica. Chegou em casa gritando:
- Vou inaugurar a caverna!
- Tá é doido pai!
- Tô, não! E não falou mais nada
como era seu costume.
Começou a se interessar por
reflorestamento, pelo impacto ambiental; protegeu a entrada da gruta, proibiu
de mexer com os animais silvestres, era proibido até espantar passarinho.
Protegeu a nascente do filete de água que ia a gruta e colocou uma placa com
dizeres: Rio do Brandão. Fez uma escada com pedras, rústica para proteção e
acesso ao local transformado em quase sagrado.
Voltou da Capital todo contente,
trazia a placa de inauguração, garantiram que durava séculos.
Começou a explicar para a família,
até então não falara nada:
- Os autofalantes do Campo de
futebol, vão ser inaugurados na benção da Caverna.
- Benção? Perguntou Gustavo, seu
filho, o padre é nosso inimigo.
- Ainda é. Mas os bancos da capela:-
foi seu vô que deu quando inauguraram, estavam cheio de pregos e remendos; dei
bancos novos e o frei disse que o Padroeiro Santo André ia entender.
- Mas quem vai falar? Perguntou
Junior.
- Oras bolas; o Tonico radialista.
-Como?
- Vive na pendura, a rádio não dá
nada. Comprei o horário e, pelo bem da família vai falar, o Partido me deu o
texto. É só ler. Coitado! Não tinha saída.
- Vocês arrumam a melhor roupa que
todos vamos à missa, a cidade tem que saber que somos religiosos.
Feita a inauguração, com
foguetório, no sermão final da missa, o Padre perguntou:
- Porque a placa tinha quatro línguas?
- Com reverencia ao local sagrado,
Brandão explicou:
-Segurança, senhor padre. Se o Rio
ficar muito grande com os cuidados que tomei, mesmo daqui a 500 anos vão saber
que fui eu quem protegia natureza. Em qualquer língua, que nem aquela pedra de
roseta que tinha no Egito.
Saiu sorrindo da missa e
conversando com tudo mundo. Tinha começado a campanha política.
17/10/12
Tony-poeta
Bravo!!!!
ResponderExcluirQue lindo e tão gostoso de ler, amei muito!
Você consegue sempre ser perfeito!
Parabéns, minha admiração aumentou!