![]() |
imagem google |
ARARAS
Vi passar pela minha janela duas aves grandes. Pelo tipo de
voo e formação notei que se tratava de um casal de araras. Estava no
lusco-fusco, não dava para ver nada além do cinza da sombra que se formava no
anteparo do sol. Mas quase com certeza tratava-se de araras. Pensei em tirar
uma foto para ver melhor, mas a máquina não estava ao alcance das mãos.
O litoral Norte de São Paulo que se inicia no Guarujá é rico
em Mata Atlântica, logo a presença das aves é possível, mas elas nunca se
expõem. Pensei melhor e deduzi que pouco melhoraria minha visão numa foto
contra o sol. Não veria as cores. Mas: Por que a documentação, se minha palavra
basta? Na verdade não queria documentar, queria possuir. Tentamos possuir tudo
que vemos, até uma foto satisfaz nosso desejo de posse.
Nos anos 60, o existencialismo era a conversa corrente da
juventude. Todo mundo se referia a Sartre, mesmo sem conhecer nada dele. O filósofo
dizia que o homem existe e vai projetar sua existência; ou seja, ele se
faz. Este movimento é feito a custa de
dominação, ele tenta possuir, portanto dominar uma sociedade que já se encontra
pronta. Neste jogo de dominação, creio eu, além de tentar possuir o outro ser
humano, sempre de acordo com o filósofo, tenta também dominar as coisas. Este é
o desejo de, pelo menos em foto, ter as duas araras. Seguia meu impulso de
dominação:- Como não posso pegar, fotografo.
Vivemos como num jogo do antigo Atari. Um elemento numular
com boca parte comendo o que se apresenta pela frente. Quanto mais difícil à
tarefa mais forte ele fica. Tem hora que pode se associar para seu objetivo, na
hora que perde, se enfraquece e tem que vencer mais obstáculos. Come até o objetivo final que é a glória; este
para nós é a morte.
Desde que nascemos estamos a buscar objetos novos; uma vez
conseguidos estes se tornam menos interessantes, ou descartáveis, conforme o grau
de afeto impregnado, obrigando sempre a partida para outro alvo. A sociedade de
consumo se baseia neste desejo, não foi ela que o inventou.
Como a natureza está em um grau inaceitável de destruição,
creio que temos de buscar objetos não degradantes ao meio, para satisfazer
nosso impulso de dominação. Já que o sistema tenta através da oferta excessiva
nos dominar e, não vai reprimir o lucro, que é o objetivo de dominação que o
Capital se propõe.
Tento particularmente fazer este movimento, analisando os
objetos que vou adquirir e, quando o impulso de compras se torna muito grande,
o engano indo a uma loja de R$ 1,99 e comprando qualquer bugiganga para acalmar
este instinto. Tem dado resultado, apesar de que ainda queria ter tirado a
fotografia.
23/10/12
Tony-poeta
Nenhum comentário:
Postar um comentário