sábado, 9 de junho de 2012

DESILUSÃO


DESILUSÃO




Na noite escura

Para o céu eu olhava,

Ele me reprovava

Chamava-me a atenção:

Do modo estabanado,

Que me comportava,

Ficando isolado

Na solidão.



Uma luz muito alva

No alto surgiu!

Ela iluminava

O escuro e a alma

Que dialogava

E mesmo chorava.

Meu peito que arfava

Pois ela fugiu.



Olhei desolado

A luz que surgia

Era um disco que via

Estava a voar

Minha cabeça cingia

Por dentro falava:

-Não mais hás de amar.

O disco voador deslizava

Quase minha cabeça roçava

Como a caçoar:

-Peguei tua amada

Vou leva-la a lua

Jamais será tua

Somente olharás

Com os olhos d’alma

A te desprezar.



E o disco passava

Minha cabeça rodava

Na noite escura

Eu olhava a luz

Na louca procura

Minha amada estava

Na noite escura

Num disco a voar

Sorrindo acenava

Dizia contente:

-Eu não vou voltar!

O disco sumiu

O tempo parou

E ela jamais

Voltou me encontrar

Fugira num disco

Estava na lua

Ouvindo poemas

De quem sabe amar.



10/06/2012

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SOLIDÃO


SOLIDÃO



Era um fantasma.

E vinha

Chegava.

Eu corria

Fugia,

Disparava.



Era uma voz distante,

Murmurante,

Horripilante.

Eu ensurdecia,

Não queria,
Mas escutava.



Era uma evocação,

Uma oração,

Era ação.

Eu sofria,

Morria,

Agoniava.



Era noite,

Noite negra e brava.

Eu escutava,

Era acompanhado,

Tinha a meu lado

A solidão.



Dei um sorriso:

-Solidão

Jogarei cartas contigo

Levar-te-ei a meu abrigo,

Te alimentarei.

Correrão os dados

Disputando,

A vitrola estará chorando

Tudo perceberei,

Tu, não.



Um riso fúnebre,

Um grande calvário

Sairá de minha boca.

A frase de um louco.

Tu a entenderás,

Darás risada,

Mas não falarás nada.

Sorriras,

Apenas sorriras.



E eu ébrio,

Sem sentido,

E sem estar,

Conformar-me-ei contigo a meu lado,

Mas furioso te esquecerei num cantinho

E continuarei sozinho.



20/11/1970

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NOVA HORA


NOVA HORA





Há nos ponteiros

Uma nova hora

A de renascer.



Vermelha é

Como o fogo.

Destruidora.



Verde é

Como os campos.

Após as chuvas.



Nasce

Nos intervalos entre

Tormentas e calmarias.

Trás consigo um vento indefinido.

Vem nas patas da nova-velha Fênix.

Pisca

Como luminoso

De incontáveis lâmpadas,

E há sempre uma diferente

Na cor e no brilhar.

Risca o céu...



Há nova hora nos ponteiros

Boa?...   Má?...

Quem saberá!...

Amanhã será esta mesma hora.

Um fato comum

Sempre presente

Embora já sendo passado.





23/03/1971

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sexta-feira, 8 de junho de 2012

SOPRO DA VIDA

A vida é apenas um sopro, muito breve, que nós o enchemos de fantasias.

A BORDADEIRA


A bordadeira




Pegou o bastidor,

Um pano muito alvo

E se pôs a bordar.

Bordaria o passado

Numa cópia perfeita

Para ao mundo mostrar.

Após muitos anos

Com as mãos calejadas

Os olhos inchados

De tanto chorar,

Descobriu desolada

Que coisas passadas

Não conseguem voltar.



08/06/12

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O GIRASSOL


O GIRASSOL




Recostado estava, meio sonolento. À tarde chuvosa num gris saudoso, ao mesmo tempo doloroso, quebrava qualquer concentração. Talvez fossem os pingos na vidraça que seguidamente de maneira monótona batiam: tec tec tec tec...  Favoreciam este marasmo e sonolência. Minha mente voava ao acaso, sem fixação nem pensar. Podia nesta tarde chuvosa e fria caminhar no nada e, no nada parar.

Um vento frio caiu do espaço atingindo o não pensar. Veio em rajadas, como ondas emboladas e em redemoinhos começou me levar. Mudei a época. Já viajava aonde seguia o ventar.

Um girassol apareceu, uma biruta em flor? Mostrava campos distantes, passado que fora presente, lugares de dor e de amor, mostrava que o tempo se esconde, num lugar que não sei onde, mas que fica no interior; no interior do ser da poesia, com guerras e confrarias e, sobretudo com o amor. Um cantinho tão bem guardado, discreto até desprezado. É onde se esconde o passado.

Em brumas, iluminando o espaço, afastando as poeiras, eu espectador olhava como fora a vida real, mesmo passado. O girassol mostrava e se iluminava. Como sorrindo apontava que aquilo era amor; um amor de moleque, de onze anos apenas, que nunca o soube se pronunciar. No espaço, como holofote, o girassol revelava luzes e algazarras, confirmando o enamorar.

Mostrava-me eu junto a ela, mirrada loirinha, acanhada. Eu moleque, de calças curtas; ela simples de menina, com olhos azuis. Ela ao olhar o girassol refletia o amarelo do dia, Era a alvorada do amor, a raiar. As pétalas brancas de paz, do girassol, balançavam.

Aonde ainda não havia caminhar, eu e ela andávamos, parece até que dançávamos envoltos em nuvens.

Sentados lado a lado, era um espaço iluminado, sempre; sempre a conversar. Estávamos na carteira. –Lembro-me! Do ginásio. Sempre a disputar o melhor de cada matéria, ora eu ora ela, podíamos comemorar uma vitória contente, que substituía um beijo ardente, pois nunca a consegui beijar.

O girassol me mostrava que: a sociedade reprovava crianças a se enamorar. Ela e eu orgulhosos com notas nas frias matérias, disputávamos na verdade quem melhor podia amar.

O girassol como magoado, de repente abaixou suas pétalas. O núcleo amarelo escureceu, no palco nublado, vi que estávamos ela e eu a se despedir. Menina ia mudar! Estava cabisbaixo e choroso, mas sem chorar. Homem não chora!

Talvez o girassol quisesse que as lágrimas regassem as suas raízes e, lhe dessem novo viçar; que mudasse o rumo da história, que fizesse entoar glória, que vicejasse o amar. Mas no choro contido, olhei aflito o que ia jurar, mas apenas falei que:- um dia iria a procurar.

As brumas se foram, o girassol inconformado que, tentou ser ressuscitado, mas não encontrou o chorar. Desapareceu no espaço e tudo sumiu.  

O tec tec tec da chuva, batendo em minha janela, era sim, o coração dela batendo acelerado pedindo para me reencontrar.

Desolado, só pude sonhar.



08/06/12




CHOVE


Chove



Chove.

Um bar.

Um artista

Apenas.



Chove.

Um bar.

Uma dor

Mais nada.



Chove.

Chove.

Madrugada

Alvorada.

Nada.



Chove.

Chove.

Granizo.

Lanças.

Punhais.

Somente

Chove.

Mais nada.



1970

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quinta-feira, 7 de junho de 2012

A BLASFÊMIA


A BLASFÊMIA



Olho de meu terraço onde pelo alto vejo a vida. Escuto um grito no ar. Procuro!

Se nos terrenos abertos, só existem condomínios de que luxo, onde este grito pode se originar?

Vejo saindo do nada, uma mulher mal trajada olhando para trás, louca a gritar,

Ninguém a persegue, no entanto segue,olhando e gritando, pondo seu grito no ar.

De onde saiu, para onde caminha no dia chuvoso e frio, onde à tarde gris parece que anoitece e, no entanto, pouco se passou do meio dia?

Que louca blasfêmia, esta pobre fêmea está a contar, qual o louco sentimento alvoroça os seus tormentos, e a põe a blasfemar?

Seu grito e revolta me faz recordar os gritos que não dei, por medo de gritar.

A sociedade tirana que domina uma hora e magoa as outras, de forma insana nos faz delirar, nos afetos cortados, nos sonhos afogados, onde não se pode chorar.

Na avalanche de regras, que faz a vida cega sem saber para onde andar, faz entender o grito, da mulher que do nada, saiu a gritar, a procura do nada, pois não tem o que encontrar.

A sociedade é de camadas acomodadas. São mandos e a adaptações; a de cima: sempre cala, não deixa a debaixo falar. Sempre agredida.  Inferiorizada com outra acima, sem domínio dês/adaptada quer recuperar sua vida. Não podendo subir, nem tampouco mandar, só resta o grito, este grito aflito onde ao excluído só resta morrer. É o grito de morte buscando o viver.

Jogo de poder, cada ser quer sempre dominar. O ser nasce líder, mas a sociedade em que vive o faz se a/sujeitar. É sempre escravo, qualquer situação, existe alguém podendo/querendo nele mandar; de tal sorte, que nesta guerra da morte, sempre ira se humilhar.

O grito louco, do nada ao nada, só pode indicar: que a vida [busca insana de poder e liderança], as frustrações acompanham o não conquistar; o ser sempre a margem [jogada ao lado de qualquer poder], sua imagem não pode brilhar; é estrela apagada, que vive no nada e, só resta gritar.

Do nada ao nada, a louca sem nome continua gritando querendo um lugar.



07/06/2012

   










ATRAÇÃO



        ATRAÇÃO


Na nova poesia vou falar
Como pode o desconhecido
Sorrateiro se aproximar
Gostar, se inspirar e amar.

Existe louca atração
Que não participa o olhar
Uma misteriosa explosão
Doce a nos aproximar.

Não usa palavras. É mudo
Leve lépido, radiação
Que aproxima. Isto é tudo
E explode sem confusão.

Como posso estando distante
Sem uma palavra, amante
Poder de um alguém gostar?
Que mundo louco surpreende
Este ser cego que só atende
No que ouve e pode olhar?

Que coisa louca esta lavra
Que sai cantando em meu peito
Se penso:- Amor só é afeito
De olhar e doce tocar.

Mas numa passagem efêmera
Eu macho, você vulto fêmea
Podemos nos comunicar.
Como sinto, tu também sentes

E nesse modo tão presente
Sem o repente de um olhar
Podemos nos dizer: Eu sinto!
E de um modo louco gostar.

No tempo, silencio profundo.
Sem o dom da fala e do olhar
Podemos alardear ao mundo
Que vamos nos apaixonar.


18/12/2011
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quarta-feira, 6 de junho de 2012

SOLIDÃO E FELICIDADE


SOLIDÃO E FELICIDADE




Estou comigo, nada me falta.

Tenho abrigo, comida e bom livro,

Ninguém me cobra. Nada devo,

Qual a razão do desassossego?

Se comigo mesmo posso ter

Tranquilidade, doce viver,

Se não tenho maldades

Como irá tal coisa aparecer?

Se eu comigo não há uma pausa

Qual a razão da briga interna

Deste corpo com sua alma?

Da paz real quero sair,

Andar a esmo, procurar...

Sabendo consciente o que encontrar.

Buscar amor na imensidão

A silhueta esbelta

Da moça esperta na multidão.

O sorriso maroto

Que olha a meu rosto

Até quer me amar,

Nos gestos fogosos

Tão doces, amorosos

A me agradar,

E com muita paixão

Diz:- meu coração

Foi bom te encontrar.

Sozinha estava

Na calma da casa

Sai para te achar.

O jogo radiante

Que ilumina em instantes

O céu e o mar,

Caminha rapidamente.

No novo poente

Já vai claudicar.

E dois machucados

Com egos magoados

Partem com o luar.

De volta ao aposento

Abrigado e triste

Começo a lembrar

E, ao recuperar a calma,

Meu corpo e minh’alma

Recomeçam a brigar

Por um novo buscar.



06/06/2012

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FERIADO DE FIM DE SEMANA


FERIADO DE FIM DE SEMANA




São Paulo, véspera de feriado, João chega em casa, depois de quatro horas de inundação e congestionamento.

- Que maravilha! Vou relaxar...

- Josefina, trás a cerveja.

-Bom! Tomando a cerveja.

-Tirou o pó dos arranjos de plantas que comprei?

- Sim! Respondeu Josefina sua mulher.

- Parecem naturais, completou ele. Que lindo!

- E do painel da Mata virgem.

- Sim! Manera que também fui trabalhar.

-É que você tem menos transito. Desculpa.

-Vou fechar a janela, - olhando para a mulher- deixar a meia luz, não vai entrar nada. Nem poeira, nem barulhos.

- Sim, respondeu ela.

- Trouxe do sebo um disco: O Canto do Uirapuru. Vamos relaxar em contato com a natureza.

Ela sentou na outra poltrona extasiada com o ambiente.



06/06/12




ORÁCULO DO SONHAR


ORÁCULO DO SONHAR




Sombras...

Sombras esvoaçadas

Cobrem o oráculo do sonhar.

Que pensar?

O que está errado?

O sonho perdeu o dia

Ou o dia expulsou o sonho?

Milagre!

O oráculo se abriu.

Sonho...

Sou poeta novamente,

Quero poetar,

O sonho do cotidiano.



As brumas pararam

E o fizeram

Para formar estrelas...

Estrelas do amanhecer,

Estrelas do anoitecer.



Renasci para formar sonhos,

E sonhar...

Sonhar contigo

Tentar viver

E viver plenamente.

28/05/2012

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CHUVA E ONDAS


CHUVA E ONDAS




Cai a chuva

Eu xingo.

Não é a chuva

Gosto de chuva.

Mas ela acerta as ondas,

Estas que fazem aparecer à internet,

E esta caí...

Eu xingo

Cai...

Xingo,,,

O RATINHO


O RATINHO




Era o amanhecer! Radiosa cinco e meia da matina. Fechei meus livros escolares.

Sabe! É verão lascado, somente a noite permite que se estude. Tomei meu banho, saí só de cuecas e sentei ao sofá dando os últimos retoques na matéria do dia, ou melhor, da noite, antes de ir dormir.

Estou deste modo refestelado quando vejo, para meu espanto, um camundongozinho que me olha atentamente. Tinha as orelhas bem em pé parecendo estar à escuta de quaisquer movimentos que se fizesse fora de seus olhares, por sinal, muito inteligentes.

Bastou apenas um descuido e, lá estava ele desaforadamente escondido bem embaixo o sofá onde me encontrava sentado.

É um desses sofás-camas antigo; basta ver: o compramos de segunda mão de uma senhora de sessenta anos e, ela já parecia ter uma velha estima pelo mesmo.

Sou estudante de medicina e, a presença de um rato, mesmo simpático como aquele, me sugeriu: peste bubônica, tifo, malária, até unha encravada e dor de cotovelo; portanto resolvi caçar o bichinho.

Não tive dúvidas, transformei-me em gato por autossugestão. Ajoelhei-me ao sofá e tirei um cabo de aço da gaveta; o qual sempre guardei como arma para quando estivesse sozinho na República e, felinamente fiquei a espera do camundongo.

Os pássaros cantaram seu brinde ao dia e, como um conjunto contratado para algum baile importante, foram embora assim que acabaram a função, bem com seus cantores, os galos que calaram à boca e foram cuidar de suas galinhas.

Os gatos, que deveriam estar em meu lugar, tinham passado a noite toda em cio, indelicadamente perturbaram meus estudos, pois além de imitar o insuportável choro de criança, atiçaram a cachorrada da vizinhança, que por sinal não é pequena. Entoaram latidos resmugantes até àquela hora. De repente tudo se calou.

A primeira pessoa a passar pela rua foi à gorda vizinha fabril de algumas casas abaixo. Deu uma olhada espantada através de minha janela. Não atentei por que; daí por diante começou o desfile de homens e mulheres que iam ao trabalho. Todos me olharam, mas persisti em minha paciência felina esperando sair o ratinho, que parecia perceber minha presença.

Das cinco para as sete, as sete e cinco, cada fábrica apitou por sua vez, de acordo com seu relógio, sete horas. O movimento de trabalhadores fabris cessou; em seguida começou o desfile de escriturários e bancários. E o ratinho nada.

Minha paciência felina esgotou. Lembrei-me de uma piadinha do Zoo Disney que saiu no O Pato Donald; onde um filhote de gato estava esperando o ratinho sair de uma tomada elétrica, [daquelas que os porcos copiaram seus focinhos] e, os papais comentavam:-“ Ele não é inteligente, mas tem uma paciência!”.

Graças a esta insignificante anedota, mudei de felino a investigador do DOPS, indo procurar o ratinho onde ele estava homiziado:

Peguei uma vassoura, levantei o assento do sofá. É um sofá cama, como já disse, embaixo do assento tem um local que seria como gaveta; hoje serve de guarda-pó por falta de limpeza da empregada. Não vi o ratinho. Havia somente um buraco no forro que dava acesso às molas.

Achei melhor não destruir o sofá; um tapeceiro afinal de contas custa caro e, usando a técnica do DOPS fiquei dando porretadas a olho com a vassoura, na parte interna do sofá, na doce esperança de alcançar a caça.

Mas que nada, ele parecia perceber minha intenção e ter se escondido muito bem.

O movimento de escriturários e bancários que olharam o investigador de cuecas cessou. Agora desfilavam as empregadas buscando o leite, que pelo visto, o Patrão não tinha tomado, pois já tinha ido ao trabalho.

Olhei o relógio; oito e meia. Vesti a roupa e fui comprar uma ratoeira.



Marilia 30/01/1969

Publicado em O NEURONIO

Período de férias do 1º ano

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